Rugas

RugasRugas é um relato acerca da doença de Alzheimer que Paco Roca criou com muito realismo e sensibilidade. Quase todos nós conhecemos alguém atingido por esta terrível enfermidade para a qual não há cura e que faz o que de pior pode acontecer a um ser humano: roubar-lhe a identidade. Através de Emílo, um bancário reformado que se vê colocado num asilo pelo seu filho e nora, acompanhamos a degradação progressiva que a doença de Alzheimer provoca. Lapsos de memória, dificuldades com coisas tão simples como usar um talher ou apertar os botões de uma camisa, alheamento completo da realidade são alguns dos sintomas vividos por  Emílio e alguns dos outros habitantes do lar. Há também quem lá esteja apenas porque não tem família ou mais para onde ir, como é o caso de Miguel. Miguel, que se aproveita das debilidades dos outros idosos para conseguir que lhe entreguem alguns valores tem uma mente lúcida, faz de cicerone de Emílio e acaba até por se tornar seu amigo. Formam um par interessante. Emílio, à medida que a doença vai progredindo, vai precisando cada vez mais de ajuda e Miguel, debaixo de uma capa de alguma bazófia (não se sente “mais só dos que os que têm filhos” e porque é solteiro não precisa de se “preocupar com a velhice de ninguém”), acaba por ser o seu suporte. Juntos, tentam evitar que Emílo vá para o 1º andar, moradia daqueles para quem já não há esperança de subsistirem sem a ajuda de outrém.

Os temas tratados em Rugas são pouco agradáveis e com escassas hipóteses de um final feliz. Além da doença de Alzheimer, aborda-se também o abandono e a solidão dos idosos, o sentimento de inutilidade e a falta de vontade de viver. No entanto, a visão de Paco Roca consegue fazer-nos sorrir em alguns momentos e mostrar-nos que mesmo perante algo inevitável, há razões para lutar e aproveitar a vida em pleno, quanto mais não seja ajudando quem precisa.

Arg.: Paco Roca| Des.: Paco Roca
Editora: Bertrand (POR) | 03-2013 | 103 pgs | cor
Preço: 16,60€

 

Rugas_Emilio_Miguel

Pequenos Prazeres

(clique para ler algumas páginas deste livro)

Arthur é um alegre conquistador. Assim que o seu apurado sensor detecta “perfume de mulher”, sobretudo sob a forma de… bem… formas, deixa-se levar pelo impulso e não desiste enquanto não obtém o que deseja: sexo! Para ele, nenhum método é considerado inadequado ou menos próprio. Arthur é capaz de tudo, até de se expor ao ridículo, algo que lhe acontece com alguma frequência.

Dito assim, pode parecer que Pequenos Prazeres não é mais do que uma colectânea de páginas de acrobacias sexuais e estafadas piadas brejeiras mas felizmente o seu autor, Arthur de Pins, soube ir para além do óbvio. Retrata com humor e sem falsos pudores as relações entre “marcianos” e “venusianas” e fá-lo com tal conhecimento de causa que se deduz que transpôs para o papel experiências reais. Para mais, alguns gags têm assinatura feminina, o que proporciona um certo equilíbrio nesta “guerra dos sexos” e possibilita que tanto homens como mulheres desfrutem de igual modo esta sucessão de pecadilhos. Apesar de ter algumas cenas de sexo quase explícitas, são apresentadas de um modo natural, sem intenção de chocar e com tal bom gosto que rapidamente dissiparam os meus receios de ler este livro em público.

A respeito do desenho, embora não aprecie muito este estilo “feito em computador”, em que tudo é muito bidimensional e as figuras parecem clones u,as das outras, admito que aqui tive de dar a mão à palmatória: as formas redondas dos seus personagens, a expressividade dos rostos e a paleta de cores têm um charme ao qual é impossível resistir. Arthur de Pins é um artista extraordinário e usa com grande criatividade as ferramentas digitais.

Esta edição junta os dois primeiros volumes da série Pechés Mignons (Péchés Mignons e Chasse à l’Homme). São cerca de 170 páginas e a princípio pensei que iria ser um pouco cansativo ler de seguida tantos gags mas graças ao talento de Arthur de Pins, o que aconteceu foi que tive foi vontade de ler a história seguinte e depois mais uma e por aí fora sem conseguir parar até chegar ao final do livro.

Depois da publicação de Persépolis, a Contraponto volta a brindar-nos com mais uma excelente BD que dará um grande prazer a quem a tiver entre as mãos. Espero que esta edição tenha bastante sucesso para que não tenhamos que aguardar largos anos (ou ad eternum) pelos volumes seguintes.

Só tenho dois “senões” a apontar à Contraponto: um, é chamar “comic” a este livro, algo que não faz sentido. Pequenos Prazeres é uma BD, é um livro de Banda Desenhada. Foi por causa do formato? O formato é o segundo senão. Se calhar, até respeita o da edição francesa mas a verdade é que é difícil ler as legendas em algumas páginas.

Arg. e Des.: Arthur de Pins
Editora: Contraponto (FRA) | 2012 | 176 pgs | cor
16,60€

“A Game of Thrones” – Uma partida morna

As Crónicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin são seguidas avidamente por milhões de leitores em todo o mundo. O cenário é um violento e impiedoso mundo medieval misturado com elementos fantásticos, onde os mais fracos são prontamente espezinhados e a inocência brutalmente desflorada, habitado por personagens de personalidade complexa e por vezes até contraditória. Aqui não há maniqueísmos, já que nem os heróis são imaculados nem os malvados estão para lá de qualquer redenção. São seres humanos que lutam pela sobrevivência, não só física mas também política, usando todos os meios que têm ao seu dispor (força, inteligência, intriga, sedução, traição) e que graças à escrita imaginativa e cativante de George R.R. Martin ultrapassam a categoria de  personagens de ficção para entrarem nas nossas mentes quase como pessoas reais pelas quais nutrimos sentimentos que vão desde a afeição até à repulsa.

Esta monumental obra literária tem até ao momento cinco volumes publicados, o primeiro dos quais, A Game of Thrones, foi adaptado em 2011 para televisão pela HBO, também com grande sucesso. Em Setembro de 2011 chegou a vez da BD, pela mão da Dynamite Entertainment.

No 1º número de A Game of Thrones, vão-nos sendo apresentados os vários intérpretes deste épico em episódios separados mas cujas vivências e histórias se cruzarão mais adiante: a Patrulha da Noite, cuja missão é vigiar as proximidades da Muralha que protege a fronteira norte dos Sete Reinos e para lá da qual há territórios selvagens onde dizem acontecer coisas estranhas e viver uns seres tenebrosos, os Outros; Eddard Stark, patriarca da Casa Stark e Senhor de Winterfell, um dos Sete Reinos de Westeros e que tenta governar com mão firme mas justa as terras que lhe estão confiadas; a sua esposa Catelyn Stark, que recebe uma mensagem da irmã, Lysa Arryn, informando-a da morte suspeita do marido Jon Arryn, Mão do Rei; o próprio Rei Robert, da Casa Baratheon, que se desloca a Winterfell com o propósito de fazer de Eddard Stark a nova Mão do Rei, i.e., seu conselheiro e comandante dos exércitos do reino; e ainda Viserys e Daenirys Targaryen, filhos do anterior rei, assassinado numa batalha contra as forças das Casa Stark e Lannister, e que pretendem agora retomar o que fora seu através de uma aliança matrimonial de Daenyris com Khal Drogo, Senhor dos Dothraki e líder de vários milhares de guerreiros.

Os 2º e 3º números acrescentam alguns elementos ao enredo mas isto é apenas o movimento inicial das peças de uma longa partida que tem ainda muito por revelar.

Quando peguei nestes três comics editados pela Dynamite ainda não conhecia os livros de George R.R. Martin nem tinha visto a série mas mesmo sem essa comparação não gostei muito do que estava a ver. Agora que já li o 1º volume de As Crónicas de Gelo e Fogo, o mínimo que posso dizer desta adaptação para BD é que é uma desilusão. Falha redondamente em captar a riqueza, o magnetismo e a força do original.

O argumento de Daniel Abrahams é fiel ao texto de George R.R. Martin, apesar dos indispensáveis cortes para que tudo encaixe nas cerca de 30 páginas de cada revista. Mesmo assim, ainda há demasiado texto concentrado em algumas páginas o que prejudica a fluidez narrativa, como se pode ver na imagem acima.

No entanto, o ponto mais fraco desta BD é a arte que não faz, de todo, justiça à imaginação de George R.R. Martin.

O desenho tem um estilo muito juvenil e as cores são em geral muito vivas. Nenhuma destas características me parecem ser as mais adequadas para esta história, já que o mundo de “A Guerra dos

Tronos”, apesar da omnipresença do fantástico, é bastante realista e muito violento. Pedia um artista mais experiente e com um traço menos infantil e o de Tommy Patterson é um pouco irregular e inseguro.

Dito isto, a quem interessará esta BD? Os leitores de “As Crónicas de Gelo e Fogo” ficam melhor servidos com as páginas brancas cheias de letrinhas negras dos romances. Os apreciadores de BD talvez achem a leitura um pouco aborrecida devido à falta de equilíbrio entre texto e imagem. Sobram os coleccionadores que, independentemente da qualidade da obra, juntam tudo o que podem acerca do objecto da sua paixão e têm aqui algo mais a acrescentar ao seu espólio.

Lamento ter de dizê-lo mas nas três encarnações de As Crónicas de Gelo e Fogo, a BD ficou a perder.

11/9 – Dez anos depois

© Brian Anderson

Em 11 de Setembro de 2001 estava a passear no Porto com a minha mulher e uma sobrinha. Embora more perto da Invicta, há já muito tempo que a não visitava como turista. Estivemos a ver vários monumentos durante a manhã e almoçamos no Via Catarina. Estava a ser um dia muito agradável mas enquanto visitávamos o Museu da Santa Casa da Misericórdia, na rua das Flores, recebemos um telefonema do meu cunhado. Estava muito sobressaltado, a perguntar onde estávamos, porque tinha havido um ataque terrorista nos EUA e até se desconfiava que seria um acto global para atingir instalações americanas em todo o mundo. Queria que viéssemos embora porque receava que sítios como o McDonalds fossem atacados e que isso nos atingisse, sobretudo à sua filha.

Mas ficamos no Porto, continuamos o passeio e tudo decorreu normalmente.

Portanto, não sentimos a força das imagens em directo do impacto dos aviões nas Torres Gémeas. Só depois de regressarmos a casa, ao fim da tarde, é que nos apercebemos da gravidade do que tinha ocorrido e aí ficamos colados à televisão a acompanhar aquelas imagens horríveis que todos recordamos. Hoje já se misturam na memórias as imagens vistas em directo com aquelas que foram divulgadas à posteriori mas o choque na cara das pessoas quando se aperceberam que dois aviões tinham chocado com as Torres, as lágrimas de desespero e sensação de impotência sentida ao ver nas janelas os desgraçados encurralados nos andares acima do incêndio, o horror de vê-los optar por saltar para a morte de uma altura de centenas de metros para assim escaparem à morte por asfixia ou pelas chamas, a fuga desesperada das pessoas para não serem atingidas pelos destroços projectados pelo desmoronar das Torres, tudo isso se junta num misto de raiva pelo acto cobarde e gratuito, medo por algo semelhante poder um dia ocorrer aqui e compaixão por todos os que morreram e por aqueles que perderam familiares, amigos ou simples conhecidos.

Dez anos passados, estamos melhor? Já não há a paranóia de ver em cada saco uma bomba, de recear que aconteça qualquer coisa quando um comboio atravessa uma ponte ou que alguém com “aspecto árabe” seja um potencial terrorista mas o mundo não está muito mais seguro. Claro que não é só consequência do pós 11/9, porque as coisas não são assim tão lineares, mas há ódios exacerbados e o medo do “outro” continua instalado.

A BD não esqueceu o 11/9 e relatou o traumático evento e homenageou os seus heróis em obras como 9-11: Emergency Relief (Alternative Comics), The Amazing Spiderman 36 (2001, Marvel Comics) ou 9-11: September 11, 2001 – Artists Respond (Dark Horse Comics, Chaos! Comics e Image Comics).

Para ler BDs online acerca do 11/9, destaco dois sites. Um reúne trabalhos de cartoonistas das agências King Features Syndicate, Creators Syndicate, Tribune Media Services, Universal Press Syndicate and Washington Post Writers Group (clique na imagem seguinte para vê-los)

O outro, da autoria de Box Brown, pega no legado mais perene do 11/9, o ódio pelo “outro” e é a meu ver um trabalho bem mais interessante. Clique na imagem abaixo para ler I Am a Patriot.


Sheena, a Rainha da Selva

Sheena foi criada pelo Estúdio Eisner & Iger e surgiu pela primeira vez em 1937 no nº 1 da revista britânica Wags. Para esconder o facto de que o Estúdio Eisner & Iger era constiuído apenas pelos próprios Will Eisner e “Jerry” Iger, estes assinavam as histórias com o pseudónimo “W. Morgan Thomas”. Nos E.U.A. estreeou-se em 1938 no nº 1 da Jumbo Comics, da editora Fiction House, e apareceu em todos os números seguintes, até ao término da revista em 1953. Entretanto, teve direito a uma revista própria que durou 18 números, entre 1942 e 1952, de nome Sheena, Queen of the Jungle e que foi o primeiro comic a ter no título uma personagem feminina. Apareceu ainda no nº 16 da Ka’a'nga, de 1952 e, por fim, em Sheena, Jungle Queen, numa edição em 3-D de 1953 que foi uma tentativa frustrada de “Jerry” Iger de ressuscitar o interesse pela “beleza selvagem do Congo”. Nos finais dos anos 50, Sheena teve uma breve reaparição feita pela I.W. Publications de Israel Waldman, um editor que se “especializou” em reimpressões não autorizadas de muitas revistas famosas. O mesmo Waldman pegou nela de novo nos princípios dos anos 70, com mais reimpressões, agora na Jungle Adventures, uma revista que durou apenas três números. Sheena ressurgiu em 1984 pela mãos da Marvel numa adaptação em BD do filme homónimo (Sheena, a Rainha da Selva, em Portugal) realizado por John Guillermin e protagonizado por Tanya Roberts, com arte de Gary Morrow. As editoras London Night Studios, Devils Due Publishing e Moonstone também tentaram revitalizar a vida da Rainha da Selva em BD mas nenhuma delas o conseguiu fazer por durante mais que poucos meses. Pessoalmente, apesar de alguns reboots e remakes terem o seu interesse, prefiro que as coisas tenham a sua época própria e gosto de vê-las à luz dessa mesma época. Pegando nas compilações Golden Age Sheena: The Best Of The Queen Of The Jungle (Vol. 1 e 2) ou escolhendo alguns dos títulos disponíveis online no site Digital Comic Museum, não faltarão horas de leitura um pouco sexy (ou será sexista?), um pouco paternalista (ou será racista?) mas bastante recompensadoras assinadas por nomes como Mort Meskin, Robert Webb, Matt Baker ou o próprio “W. Morgan Thomas”. E agora com licença porque vou ver como a Sheena se desembaraça do esclavagista Hassan Bey (clique na imagem abaixo para ler “The Slave Brand of Hassan Bey”)