As Crónicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin são seguidas avidamente por milhões de leitores em todo o mundo. O cenário é um violento e impiedoso mundo medieval misturado com elementos fantásticos, onde os mais fracos são prontamente espezinhados e a inocência brutalmente desflorada, habitado por personagens de personalidade complexa e por vezes até contraditória. Aqui não há maniqueísmos, já que nem os heróis são imaculados nem os malvados estão para lá de qualquer redenção. São seres humanos que lutam pela sobrevivência, não só física mas também política, usando todos os meios que têm ao seu dispor (força, inteligência, intriga, sedução, traição) e que graças à escrita imaginativa e cativante de George R.R. Martin ultrapassam a categoria de personagens de ficção para entrarem nas nossas mentes quase como pessoas reais pelas quais nutrimos sentimentos que vão desde a afeição até à repulsa.

Esta monumental obra literária tem até ao momento cinco volumes publicados, o primeiro dos quais, A Game of Thrones, foi adaptado em 2011 para televisão pela HBO, também com grande sucesso. Em Setembro de 2011 chegou a vez da BD, pela mão da Dynamite Entertainment.
No 1º número de A Game of Thrones, vão-nos sendo apresentados os vários intérpretes deste épico em episódios separados mas cujas vivências e histórias se cruzarão mais adiante: a Patrulha da Noite, cuja missão é vigiar as proximidades da Muralha que protege a fronteira norte dos Sete Reinos e para lá da qual há territórios selvagens onde dizem acontecer coisas estranhas e viver uns seres tenebrosos, os Outros; Eddard Stark, patriarca da Casa Stark e Senhor de Winterfell, um dos Sete Reinos de Westeros e que tenta governar com mão firme mas justa as terras que lhe estão confiadas; a sua esposa Catelyn Stark, que recebe uma mensagem da irmã, Lysa Arryn, informando-a da morte suspeita do marido Jon Arryn, Mão do Rei; o próprio Rei Robert, da Casa Baratheon, que se desloca a Winterfell com o propósito de fazer de Eddard Stark a nova Mão do Rei, i.e., seu conselheiro e comandante dos exércitos do reino; e ainda Viserys e Daenirys Targaryen, filhos do anterior rei, assassinado numa batalha contra as forças das Casa Stark e Lannister, e que pretendem agora retomar o que fora seu através de uma aliança matrimonial de Daenyris com Khal Drogo, Senhor dos Dothraki e líder de vários milhares de guerreiros.
Os 2º e 3º números acrescentam alguns elementos ao enredo mas isto é apenas o movimento inicial das peças de uma longa partida que tem ainda muito por revelar.
Quando peguei nestes três comics editados pela Dynamite ainda não conhecia os livros de George R.R. Martin nem tinha visto a série mas mesmo sem essa comparação não gostei muito do que estava a ver. Agora que já li o 1º volume de As Crónicas de Gelo e Fogo, o mínimo que posso dizer desta adaptação para BD é que é uma desilusão. Falha redondamente em captar a riqueza, o magnetismo e a força do original.

O argumento de Daniel Abrahams é fiel ao texto de George R.R. Martin, apesar dos indispensáveis cortes para que tudo encaixe nas cerca de 30 páginas de cada revista. Mesmo assim, ainda há demasiado texto concentrado em algumas páginas o que prejudica a fluidez narrativa, como se pode ver na imagem acima.
No entanto, o ponto mais fraco desta BD é a arte que não faz, de todo, justiça à imaginação de George R.R. Martin.
O desenho tem um estilo muito juvenil e as cores são em geral muito vivas. Nenhuma destas características me parecem ser as mais adequadas para esta história, já que o mundo de “A Guerra dos
Tronos”, apesar da omnipresença do fantástico, é bastante realista e muito violento. Pedia um artista mais experiente e com um traço menos infantil e o de Tommy Patterson é um pouco irregular e inseguro.
Dito isto, a quem interessará esta BD? Os leitores de “As Crónicas de Gelo e Fogo” ficam melhor servidos com as páginas brancas cheias de letrinhas negras dos romances. Os apreciadores de BD talvez achem a leitura um pouco aborrecida devido à falta de equilíbrio entre texto e imagem. Sobram os coleccionadores que, independentemente da qualidade da obra, juntam tudo o que podem acerca do objecto da sua paixão e têm aqui algo mais a acrescentar ao seu espólio.
Lamento ter de dizê-lo mas nas três encarnações de As Crónicas de Gelo e Fogo, a BD ficou a perder.
