Referiste numa entrevista à Panini Brasil, que Will Dennis (editor da Vertigo) te propôs fazeres alguns desenhos de teste para uma nova série acerca de viquingues (“Northlanders”). Qual foi a tua reacção a este convite? Brian Wood (o argumentista) aprovou de imediato o teu trabalho? Deu algumas sugestões?
Só entrei em contacto com o Brian depois de ter recebido de Will Dennis a confirmação de que ia participar no projecto. Depois disso, o Massimo Carnevale (autor das capas de “Northlanders”) e eu trabalhamos esforçadamente para conseguir um visual gráfico para o este primeiro ciclo de Northlanders e reunir toneladas de referências. O Brian não me deu mais do que uma planificação vaga de cada página. Julgo que foi apenas para ganhar alguma confiança com o modo como gosto de trabalhar e assegurar-se que a voz do primeiro número soasse com clareza.
Como foi trabalhar com ele? Havia um planeamento rígido que eras obrigado a seguir ou tiveste liberdade para traduzir o texto para imagens do modo que achasses melhor?
O Brian tem um método de trabalhar muito prático e analítico. Usa um guião clássico com descrições precisas mas sem exageros. Deu-me muita liberdade no design mas com a condição que seguissemos pelo mesmo caminho. Tenho de admitir que prefiro este método de trabalho. Gosto de poder interpretar a visão do argumentista mas ainda assim ser fiel à sua visão. Gostei verdadeiramente de trabalhar com ele.
Até que ponto é fiel a representação que fazes em “Northlanders” das paisagens, construções, roupas e armas? Tiveste de fazer muita pesquisa? Houve alguns livros, desenhos ou pinturas que te tenham ajudado a recriar o mundo em que vive Sven?
A internet foi essencial para encontrar as referências certas para este projecto. O mais importante foi encontrar o visual correcto e assegurar que fosse fiel, dentro do possível. Fiz muita pesquisa e usei imagens de museus onde não pude ir e também de grupos que fazem recriações daquela época. Também utilizei livros militares e pinturas, sobretudo para representar Constantinopla em 900 D.C.
Ao longo da história, vemos muitos personagens barbudos e cabeludos mas todos têm traços faciais distintos, são facilmente reconhecíveis. Foi uma preocupação que tiveste, torná-los indivíduos e não apenas mais um, ou uma, viquingue?
Sim, foi um ponto importante assegurar que os personagens principais fossem bem individualizados. No caso dos personagens mais secundários, tentei mudar os acessórios do seu vestuário ou o estilo do penteado. Foi mais difícil porque com tanto cabelo e barba perde-se muito das características faciais que tornam o rosto de cada pessoa único. Portanto, tive de ter uma atenção redobrada com isso.
Depois de “Sven, the Returned” regressaste a “Northlanders” no nº 20 (“Sven, the Immortal”). Fizeste algo diferente? Mudaste alguma coisa na planificação ou no estilo?
Julgo que algumas coisas mudaram sobretudo porque, sendo um número único, há mais pormenores e a narrativa é mais precisa. Enquanto trabalhava em Greek Street, amadureci algumas características do meu estilo. Isto pode ser parte da razão porque o estilo é um pouco diferente (de “Sven, the Returned”). Mas a cada projecto espero amadurecer, aprender e melhorar como artista.
A planificação de “Sven, the Returned” é quase cinematográfica, com vinhetas em formato panorâmico. Algumas dessas vinhetas têm linhas horizontais no fundo que transmitem uma forte sensação de acção e dinamismo. Isso foi propositado? Pretendeste dar-lhe este aspecto de filme?
Gostei muito de usar vinhetas panorâmicas porque para além de, como disseste, darem um ar cinematográfico também têm mais dinamismo e fluidez. O leitor sente-se confortável com este formato porque é o que se vê nos filmes. Além disso, a BD e o cinema, mesmo sendo uma em papel e a outra projectada numa tela, são duas artes bastante semelhantes no modo como lidam com aquilo que representam.
As cores são da responsabilidade de Dave McCaig e, na minha opinião, ele fez um trabalho maravilhoso. Gostavas de também ter sido o responsável pelas cores de “Sven, the Returned”?
Adoro o trabalho do Dave. Acho que a nossa colaboração correu extremamente bem e o seu trabalho é extraordinário. Eu não sou colorista e nunca pensei em tratar das cores. O trabalho do Dave está acima e para lá de qualquer coisa que eu tivesse feito.
Em retrospectiva, como vês o teu trabalho em Northlanders?
Bem, em algumas coisas sinto que é um trabalho ainda um pouco “verde”. É algo que normalmente sinto quando vejo os meus trabalhos anteriores. Como disse, quanto mais uma pessoa desenha, mais amadurece e mais segura de si se torna. Por outro lado, acho que é extremamente belo e poderoso. Na verdade, por vezes gosto de olhar para trás, para algumas ideias que tive, e não tenho a certeza que hoje fosse capaz de encontrar uma solução tão eficaz. Julgo que às vezes a nossa intuição nos presenteia com coisas espantosas. “Northlanders” foi um projecto fundamental para mim e para o meu crescimento como artista, além de ter sido o meu primeiro trabalho para os EUA. Estou muito ligado a ele e bastante feliz por ver que teve impacto em tanta gente e que é bastante apreciado.
