Northlanders Vol. 1: Sven, the Returned
Sven não entende o culto que o seu povo dedica à morte. Para ele, o importante é viver e por causa desse seu modo diferente de pensar, um acontecimento bastante grave que envolve a sua mãe pôe em causa o seu lugar e a sua utilidade na comunidade. Ao contrário do que a própria mãe esperava dele, preferiu a vida à morte e por isso sentiu-se obrigado a deixar, ainda muito jovem, as terras de Orkney. A jornada não se iniciou da melhor maneira, já que foi feito escravo por conterrâneos seus mas a liberdade que perdeu foi compensado por uma passagem acelerada à fase adulta e por um conhecimento de outros povos e costumes que iria dar-lhe as ferramentas necessárias para se constituir como uma espécie de pioneiro de uma nova era que começava então a despontar. Viveu muitos anos em Contantinopla, onde fez parte da Guarda Varegue que protegia o Imperador Basílio II1.
Constantinopla era uma cidade bastante cosmopolita, com um estilo de vida muito diferente da dependência da superstição e apego ao passado que Sven experimentou na sua infância em Orkney. No entanto, a vontade de um dia regressar às suas origens nunca o deixou e a ocasião de o fazer proporcionou-se-lhe quando teve conhecimento que seu pai morrera e era agora o seu tio Gorm que governava as terras e riquezas que por herança deveriam ser suas.
Este é ponto de partida de “Northlanders: Sven, the Returned”, o 1º volume desta série da Vertigo, escrita por Brian Wood e com arte de Davide Gianfelice.
Num estilo moderno, tanto na escrita como no desenho, “Northlanders” mergulha-nos no mundo e vivência dos viquingues de fins do 1º milénio mas além disso, apresenta-nos também a sempre actual e eterna luta entre os que vêem o futuro e sabem que a mudança é indispensável e aqueles que continuam agarrados às tradições, aos poderes e aos hábitos há muito instalados.
Esta contemporaneidade é assumida por Brian Wood numa entrevista ao site Comic Book Resources (CBR): “(…) estou a pegar em temas actuais e a colocá-los na História, contrastando, comparando, encontrando semelhanças e imaginando como teriam acontecido de um modo diferente num mundo diferente (…)”.
A linguagem crua e completamente do séc. XXI usada por Brian Wood, por mais incorrecta que seja em termos de História, cria uma empatia com o leitor que de outro modo talvez não fosse tão eficaz. A opção de entremear flashbacks na narrativa ajuda-nos a compreender melhor os comportamentos e motivações actuais dos personagens mais relevantes.
A nível gráfico, Gianfelice não se refreou na representação da violência, que é bastante explícita. Não faltam decapitações, corpos trespassados por espadas, gargantas cortadas e sangue a jorros, tudo numa planificação bastante cinematográfica. Quase todas as vinhetas são desenhada num formato horizontal (“widescreen”), e em algumas o fundo é composto por cinéticas linhas horizontais que acentuam o dinamismo da acção.
Mas isto seria redutor não fora o excelente trabalho de caracterização que David Gianfelice fez com os personagens, não só a nível da individualização de cada rosto mas sobretudo no modo como transmite com expressividade os seus sentimentos. A título de exemplo, note-se a mudança que há na expressão de Sven quando reencontra os seus antigos vizinhos, os Ivarsson. Até aí sempre carrancudo, concentrado e pronto a entrar em combate à menor provocação, a sua atitude vai mudando e o seu semblante suaviza-se conforme vai escutando as palavras dos seus anfitriões. Mesmo quando nega, em pensamento mas veementemente, a possibilidade de haver gratificação numa vida simples e calma, adivinha-se no rosto de Sven que, no fundo, talvez até fosse esse o seu desejo.
As cores, num belo trabalho de Dave McCaig, associam tons sombrios e depressivos à vida infeliz dos habitantes de Orkney, passando a tons mais quentes e fortes nalgumas cenas de batalha e nos flashbacks de Constantinopla.
Dizer que este 1º arco de Northlanders (o quarto, “The Plague Widow”, será editado em Outubro deste ano) é uma história de viquingues “finalmente bem feita!” (Entertainmente Weekly), é um pouco exagerado mas que o arrojo da linguagem, a actualidade do tema e a beleza da arte nos agarram e não largam mais, isso é indiscutível.
1 Em 980 D.C., Constantinopla era governada pelo imperador Basílio II. Nesse ano, recebeu de oferta do Príncipe Vladimir de Kiev, 6.000 guerreiros varegues. Os varegues eram povos escandinavos que viajaram para sul e leste a partir das suas terras de origem, as actuais Dinamarca e Suécia, saqueando mas também fazendo comércio pelo caminho.
A sua bravura, lealdade e sentido de honra, foram elementos essenciais para que Basílio II fizesse deles seus guarda costas, criando a Guarda Varegue.














Esta série tem muito bom aspecto, parece ser mesmo ao meu gosto!
O papel usado pela Vertigo aqui nesta série é o vulgar papel de m***a desta editora, ou é normal?
Abraço
É o “papel higiénico” áspero normal desta editora.

Pessoalmente, prefiro assim. Não gosto muito do papel couché, brilhante, embora concorde que em alguns casos ele é indispensável para reproduzir bem os desenhos.
Mas a série merece bem a leitura, mesmo em papel de m****.
Um abraço.
Bongo se tens pressa compra já.Depois daqui a alguns anos quando sair a edição Deluxe já leste e podes revender.