The Unwritten Vol. 1: Tommy Taylor and the Bogus Identity
Tom Taylor, o “herói acidental” de “The Unwritten: Tommy Taylor and the Bogus Identity”, é filho do famoso escritor Wilson Taylor, autor de uma popular série de livros cujo protagonista é um jovem mágico. Wilson Taylor usou como modelo o seu próprio filho e chamou ao seu personagem… Tommy Taylor.
Milhões de fãs em todo o mundo seguem as aventuras de Tommy e dos seus companheiros (Sue, Peter e Mingus, uma gata alada) e esperam ansiosamente pela saída de um novo livro. O problema é que Wilson Taylor não deu mais sinais de vida após a publicação do 13º volume da série. Depois do desaparecimento do pai, e para poder subsistir, Tom fica dependente da fama que obteve graças a estes livros. Impedido legalmente de tocar na fortuna do pai, o seu ganha-pão são as entrevistas, as convenções e as sessões de autógrafos relacionadas com o merchandise e produtos derivados de Tommy Taylor (livros, jogos, filmes, etc.)
Embora tenha tentado um pouco de tudo para se libertar desse personagem (música,representação, escrita…), nada resultou. Até no papel principal de uma adaptação cinematográfica das histórias de Tommy Taylor se viu preterido.
Conformado mas com alguma revolta por vezes mal contida, vai dando aos fãs as respostas que eles querem ouvir. Um dia, numa dessas convenções, uma jovem levanta-se da audiência, aponta algumas incongruências da biografia oficial de Tom e começa a fazer-lhe perguntas incómodas acerca da sua verdadeira identidade. Num ápice e com um efeito de bola de neve, os acontecimentos precipitam-se e Tom Taylor passa de herói inspirador a vilão usurpador. Onde antes era recebido em apoteose é agora esperado com insultos e tentativas de agressão.
Os fãs não lhe perdoam a “traição” e um deles, que julga ser o Conde Ambrosio (nemesis de Tommy Taylor), acaba mesmo por raptá-lo com o intuito de o assassinar em directo via internet para provar que Tom Taylor não é Tommy Taylor. Este plano falha graças à intervenção da mesma jovem que tinha (involuntariamente?) dado início a este clima de ódio em relação a Tom Taylor. O que resultou daqui foi que Tom, escapado “milagrosamente” da difícil situação em que se encontrava, é agora visto por muitos como sendo o verdadeiro Tommy Taylor, uma espécie de messias que é mais do que uma mera personagem de ficção. Intrigado com tudo o que está a acontecer-lhe, Tom inicia uma viagem em busca das suas verdadeiras origens, armado apenas com uma faculdade que o pai, a quem não perdoa o abandono, lhe ensinou quando era jovem: conseguir identificar com grande facilidade os cenários reais de acontecimentos importantes da literatura mundial.
Para Tom, estes conhecimentos de geografia literária são completamente inúteis mas futuramente terão muita importância na sua demanda pela verdade.
Entretanto, uma sociedade secreta que controla e condiciona as palavras que compõem o nosso mundo, tanto o real como o imaginário, segue com interesse os movimentos de Tom Taylor.
Esta obra tem um argumento muito sólido e criativo de Mike Carey, que caracteriza muito bem a personalidade dos vários personagens. Um bom exemplo é o protagonista já que através do seu comportamento, temos uma boa ideia da dificuldade que é viver à sombra de um nome e conseguir em simultâneo manter a verdadeira personalidade. Há na história muitas referências literárias mas estas nunca se tornam empecilhos à narrativa. Quem reconhece as alusões espalhadas pelas páginas de “The Unwritten”, acrescenta um plano ao prazer da leitura mas quem as desconhece não perde o fio à meada por causa disso. Além dos trechos retirados dos livros de “Tommy Taylor” também encontramos outros pertencentes a clássicos da literatura, como “Frankenstein” de Mary Shelley.
A planificação e a arte são de Peter Gross. Alguém disse que os desenhos de “The Unwritten” são um pouco “cartoonescos”, o que é verdade, e nem sempre a finalização é muito bem cuidada mas enquadram-se bem neste mundo em que as fronteiras entre realidade e fantasia são, por vezes, bem ténues. Como é habitual em muitos comics, o desenho é mais funcional do que belo artisticamente (uma periodicidade mensal obriga a uma certa rapidez na execução) mas tem várias pranchas muito bem conseguidas.
Há uma relação bem vincada desta BD com a literatura clássica universal. É uma relação tão importante que o último capítulo desta compilação dos cinco primeiros números de “The Unwritten” é protagonizada por Rudyard Kipling. O imortal escritor encontra na tal associação mencionada mais acima o apoio que necessitava para tornar mais populares os seus escritos encensadores da glória e do poderio de Inglaterra. Na verdade, isso acontece mas o preço a pagar é muito alto.
Misturando verdade e ficção, este segmento serve não só para nos apresentar as origens de uma sociedade secreta que até aos dias de hoje congemina uma conspiração literária mas também a luta de um escritor a quem, depois de tantas desgraças ocorridas na sua vida pessoal, resultantes da sua tomada de consciência da verdadeira natureza dos interesses deste grupo que o ajudou, apenas resta a escrita para se opor a estas forças poderosas.
Neste capítulo é até inserida uma adaptação do conto de Rudyard Kipling “How The Whale Got His Throat” (4umi).
“The Unwritten: Tommy Taylor and the Bogus Identity” é um excelente arranque desta nova série da Vertigo e já deixa enigmas e pistas suficientes para suscitar a curiosidade dos leitores, dando-lhes vontade de seguir os próximos números. Merece bem a atenção de todos os apreciadores de boa BD e também daqueles que, de um modo ligeiro, associam invariavelmente os comics a super-heróis.
(Este texto foi publicado originalmente no blogue Mundo Fantasma) * *










