Há quem tenha bonés-com-hélice…
“Pensava que a loucura era uma ilha, mas afinal é um continente.”
Esta frase, extraída de “O Alienista” de Machado de Assis, é a melhor introdução que José Carlos Fernandes poderia ter escolhido para este seu álbum, “Pessoas que Usam Bonés com Hélice”, editado pela ASA em 2003.
Este livro não conta uma história em quadrinhos, é uma sucessão de quadros individuais que funciona, nas palavras do autor, como um “pequeno catálogo de perturbações mentais.” A abrir, temos “O Homem que receia ser atingido por um meteorito”, inventor de um capacete que detecta um impacto com 3 segundos de antecedência mas tem um defeito: é “incapaz de distinguir meteoritos de caganitas de pássaros”. Está assim dado o mote para o que se segue: uma sucessão de personagens, cada uma com o seu próprio “boné com hélice”, que desfiam as suas crenças idiossincráticas sempre de um modo convicto.
Embora não consigam convencer a maior parte dos seus interlocutores de que o que dizem é verdade, alguns destes aproveitam as “capacidades” destas figuras. Por exemplo, a vizinha da mulher que tem um marido que julga ser um cortador de relva pede-o emprestado por meia hora para tratar do seu jardim. Os desenhos, executados num traço áspero e coloridos em tons de âmbar, dão um destaque bastante importante à expressividade dos rostos, que são desproporcionalmente grandes em relação ao resto do corpo. Sendo aqui o mais importante o que passa pela cabeça destes personagens, não causa estranheza ou incómodo esta “irregularidade” estética que simboliza a grande complexidade destas mentes únicas (é verdade que todos os restantes personagens figurantes tem a cabeça grande mas, para mim, isso significa que todos têm potencial para usar “bonés com hélice”.)
Os textos fazem-nos sorrir e mesmo rir pelo absurdo e nonsense de alguma situações. Não resisto a descrever algumas:
- Temos “O homem que ouve dentro da cabeça cantores de ópera já falecidos” que esteve a “ouvir” Wagner das 2 da manhã até ao nascer do sol. O problema é que não gosta de Wagner e, pior, nem gosta de ópera.
- Uma mulher julga que os seus vizinhos são ETs de Sirius com falsas cabeças grandes que escondem as suas verdadeiras cabeças de alfinete, que têm apenas 1/8 do tamanho normal. (nota curiosa: a proporção da altura do corpo humano que muitos artistas usam como referência é de… 8 cabeças.)
- Há também o homem que interpreta o futebol como uma realidade transcendente: “Se eu pudesse registar todas as trajectórias de todos os jogadores no relvado… Tenho a certeza de que esses intrincados padrões reproduziriam a dança da Criação, que Deus executou aquando do começo das coisas.”
- Outro aspira a ser capaz de levitar e acha que “após três semanas a comer só refogado de ruibarbo”, os seus pés mal tocarão o chão. “É apenas uma questão de meditação e de uma dieta que favoreça a produção de gases intestinais.”
- E por fim alguém que está convencido que lhe roubam as grandes ideias que tem durante o sono: “E que ideias te roubaram?” “Se foram roubadas não me posso lembrar delas! Levam as melhores e deixam ficar as banais!”
São 44 quadros com humor, ironia, observação e crítica que se lêem e relêem com imenso deleite.
Como demonstra esta obra de José Carlos Fernandes, a loucura “afinal é um continente”. E ainda acrescento que pude comprovar que é um continente bastante povoado. Quando comprei este livro, o vendedor, ao procurá-lo na prateleira, pediu-me que lhe repetisse o título: “Pessoas que Usam Bonés-com-Hélice”, respondi. E acrescentei: “Já não vejo bonés destes há muitos anos.” Um rapaz que também estava na livraria disse: “Eu tenho um. Tem uma pequena bateria solar em cima que faz girar uma hélice colocada na pala. É bom para o Verão, refresca a cara”.
Eles andam entre nós.
“Pessoas Que Usam Bonés com Hélice”, de José Carlos Fernandes. Edições ASA (2003)











